domingo, 1 de junho de 2008

Resenha de Filme II: Arquitetura da Destruição – Peter Cohen. Suécia, 1989. 121 min.

O estudo de Peter Cohen associa ideais de arte, beleza e perfeição à política de propaganda nazista. Durante a crise alemã, no período entre-guerras, a arte moderna foi associada ao bolchevismo e aos judeus, e representava, para os nazistas, a deformação e a degeneração presentes na sociedade. Tanto que, em algumas cenas, são mostradas exibições abertas ao público de obras de judeus e comunistas, e tais mostras são realizadas pelo III Reich com intuito inteiramente depreciativo.
Cohen aborda um perfil psicológico pouco conhecido do Führer, que era a sua admiração por Karl May, escritor alemão de livros infantis, que narrava histórias sobre índios e outros tipos de mitos carregados de heroísmo, e este heroísmo fez parte da figura de Hitler até sua vida adulta.
Em 1918, Hitler tem sua matrícula recusada na Escola de Arte de Viena (fato que se deu bem antes da ascensão nacional-socialista), e através de seu poder, encontrou uma forma de expressar sua arte em coisas simples, desde o desenho do uniforme dos oficiais SS até em obras arquitetônicas grandiosas. Vale ressaltar que Hitler admirava padrões de beleza física na Antiguidade, principalmente sob a figura de gregos e romanos, além de mitos medievais alemães.
Assim, é estabelecido um elo entre a formação de Hitler e de outros oficiais e os critérios utilizados para dar base à ideologia que se fundamentava na busca da beleza e da pureza raciais. Hitler recorria também aos médicos, a quem chamava de "guerreiros biológicos que cuidam da beleza da raça", para montar teorias racistas e aplicar monstruosos programas de eutanásia, de eliminação de portadores de deficiências físicas ou mentais e para contribuir com o esforço de "limpar o Terceiro Reich de sujeira biológica", numa referência aos judeus. Um detalhe curioso abordado por Cohen: os médicos eram a categoria profissional com maior número de adeptos ao partido nacional-socialista, 45% deles eram filiados.
Do ponto de vista social, o embelezamento é vinculado diretamente à limpeza. A limpeza do local de trabalho e a limpeza do próprio trabalhador. Os nazistas consideram que ao garantir ao trabalhador a saúde e a limpeza, libertam-no de sua condição proletária e, garantem-lhe dignidade de burguês, eliminando portanto a luta de classes.
"Arquitetura da Destruição" se equilibra ainda sobre a linha cronológica. Conta o desenrolar da Segunda Guerra Mundial como pano de fundo para desenvolver sua tese a respeito dos valores estéticos de Hitler e sua importância na gênese do nazismo. O filme dedica ainda um bom tempo à perseguição e eliminação dos judeus como parte do processo de purificação, não só da raça, mas de toda a cultura, mostrando o processo de extermínio. É interessante perceber que, durante toda a guerra, mesmo no período final com a proximidade da derrota, os projetos arquitetônicos do III Reich tiveram andamento, pretendendo construir a nova Berlim, capital do mundo.
O nazismo atingiu toda essa força porque suas idéias atingiram a história. Hitler, ao construir monumentos, imaginava como eles seriam quando destruídos; era importante mostrar às gerações futuras a soberania alemã. Hitler era visto com gênio e utilizava a cultura como ponto chave na obtenção de apoio popular; usava a estética, em vez da política, para massificar a sociedade. Ter nascido na Alemanha era ser superior. O povo poderia se expressar, mas não poderia alterar o regime de propriedade vigente. A estetização da política e o fascismo fascinante violentaram a massa, impuseram o culto a um chefe que via na guerra um modo de fornecer um objetivo ao povo sem tocar no estatuto da propriedade. A estética provou a Hitler que ela não se sustenta sozinha, e que precisa de meios históricos e políticos para realmente conceder poder e transformar a sociedade.

Um comentário:

Unknown disse...

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